domingo, 2 de outubro de 2011

refeitura do Rio ameaça invadir 421 imóveis com focos de dengue

Publicada em 01/10/2011 às 18h13m

Célia Costa (celia@oglobo.com.br)

RIO - Numa guerra que está sendo travada há mais de três décadas, o inimigo, o Aedes Aegypti, transmissor do vírus da dengue, não só já venceu algumas batalhas, como tem conseguido alguns aliados: são os moradores que não eliminam os focos do mosquito e, principalmente, os que não permitem vistorias em suas residências. Desde que a prefeitura implantou, há cerca de um mês, um pacote de medidas para enfrentar a pior das epidemias, esperada para este verão - como a volta do fumacê e a entrada compulsória em casas ou prédios fechados -, chega a 421 o número de imóveis que podem ser invadidos por agentes de saúde, para verificar a existência de criadouros do mosquito. Preocupado, o prefeito Eduardo Paes já assinou decreto declarando estado de alerta na cidade contra a dengue.

Agente da prefeitura cola ficha de notificação em imóvel fechado no Méier / Foto: Mônica Imbuzeiro - O Globo

Laboratórios do mundo inteiro, incluindo o Brasil, enfrentam o difícil desafio de produzir uma vacina que proteja a população dos quatro tipos de vírus da doença. As pesquisas, no entanto, ainda não foram concluídas. Enquanto isso, em todo o estado, desde janeiro, 159.052 casos de dengue foram notificados e 131 pessoas morreram. Na capital, foram 51 óbitos.

O secretário municipal de Saúde, Hans Dohmann, reconhece que o Aedes está vencendo a guerra. Segundo ele, as dificuldades para enfrentar a doença continuam grandes e é fundamental que a população colabore.

- Noventa por cento das pessoas abriram os imóveis depois da primeira notificação. Mas os outros 10% ainda são um percentual muito alto. Isso nos preocupa, porque 82% dos focos do mosquito estão nas residências. Também constatamos que 66% dos doentes foram contaminados por causa de mosquitos existentes em focos dentro de casa. Nosso desafio para o verão é melhorar isso - disse Dohmann.

Ipanema tem 17 imóveis notificados

Desde que entrou em operação, em março, o telefone 1746 (central de atendimento ao cidadão, da prefeitura), já foram feitos cerca de 11 mil pedidos de vistoria em possíveis focos de mosquito. Campo Grande, Tijuca e Bangu são os bairros com o maior número de solicitações. Mas o problema não faz distinção de classe. Na Zona Sul, Ipanema é o bairro que tem o maior número de imóveis fechados notificados: 17.

- Na Ilha do Governador, por exemplo, a localidade que concentra (o maior número de imóveis notificados) é o Jardim Guanabara. No Recreio, são os condomínios de alto padrão: o número de imóveis notificados no bairro chega a 27 - disse o secretário.

Conforme o decreto assinado por Paes, no caso da ausência de moradores no domicílio suspeito de ter focos, o agente de saúde fará três tentativas de entrada, em dias e horários diferentes. A cada vez, ele deixará uma notificação com a data e a hora da próxima visita. Caso não consiga fazer a inspeção, o fato será publicado no Diário Oficial, onde constarão também o dia e a hora de uma quarta visita. Se nessa data ninguém for encontrado mais uma vez, o agente poderá entrar à força no imóvel.

Ainda de acordo com o decreto, o morador que descumprir a determinação de eliminar os focos do mosquito está sujeito ao pagamento de multa. A Secretaria municipal de Saúde informou que o valor ainda não foi estipulado porque isso depende da regulamentação do decreto.

Obra parada na Urca deve ser invadida

Um dos 421 imóveis que estão na iminência de ser invadidos para a inspeção é uma construção no número 100 da Rua São Sebastião, na Urca. A obra, embargada pela prefeitura, já recebeu três notificações. Agora, o aviso sobre a entrada compulsória será publicado no Diário Oficial. Presidente da Associação de Moradores da Urca (Amour), Celi Ferreira disse que ninguém aparece no local há mais de um ano e que há uma piscina abandonada no terraço. Antes, de acordo com Celi, quando ainda havia um vigia no imóvel, agentes de saúde conseguiam vistoriar o lugar.

- Nossa preocupação maior é com as 80 crianças de 1 a 6 anos que estudam na creche em frente - contou Celi. - Com que direito uma pessoa ameaça a vida dos vizinhos?

Na Rua Vilela Tavares, no Lins de Vasconcelos, uma casa abandonada está tirando o sono dos vizinhos. Cheia de lixo e com forte mau cheiro, o imóvel já recebeu duas notificações. A esteticista Luana Esperança, que mora ao lado, reclamou da grande quantidade de mosquitos existente no local.

Em Todos os Santos, uma casa fechada na Rua José Bonifácio tem uma piscina com água verde no quintal. Moradores fizeram queixa ao 1746, mas os agentes ainda não conseguiram entrar no imóvel. Além da piscina, uma grande quantidade de garrafas de cerveja e copos plásticos no quintal são possíveis focos de Aedes. Na semana passada, o imóvel recebeu a primeira notificação.

O terceiro Levantamento Rápido do Índice de Infestação por Aedes aegypti (Lira) realizado este ano, em agosto, aponta uma média no Rio de 1,4% - o que significa que, a cada cem imóveis vistoriados, foram encontrados focos em 1,4. O índice considerado tolerável pelo Ministério da Saúde é de menos de 1%. Apesar de ainda estar acima do tolerável, o índice encontrado no Rio é o menor registrado em agosto desde 2005. Em 2010, no mesmo período, a taxa foi de 1,6%. Em junho deste ano, o índice foi 2,4%.

Uma conjunção de fatores ligou o sinal de alerta para a possibilidade de uma grande epidemia de dengue no próximo verão. Este ano, o aumento do número de casos em todo o estado tem como causa o retorno do vírus 1 da doença, que não circulava por aqui desde 1987. Por causa disso, os mais jovens, que não tiveram contato com o vírus e portanto não se encontram imunizados, estão mais suscetíveis a ficar doentes. Para agravar o quadro, em fevereiro deste ano, constatou-se que o vírus tipo 4 da dengue, com o qual a população nunca teve contato, já chegou ao Rio.



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