Com apenas 22 anos, Thiago Martins é um dos principais destaques de “Insensato Coração”. O jovem ator convence e assusta como o homofóbico Vinícius, preso pelo assassinato de Gilvan (Miguel Roncato).
Em um momento em que crimes motivados pelo preconceito contra a orientação sexual ganham quase diariamente os meios de comunicação, Thiago Martins interpreta o personagem que deve garantir uma sólida carreira na televisão.
“Insensato Coração” pode terminar tendo Vinícius como seu principal vilão e, provavelmente, um dos mais marcantes na teledramaturgia recente. Ele foge do modelo clássico, motivado pela ambição financeira ou por um plano de vingança. Isso o diferencia de Léo (Gabriel Braga Nunes) e de outros antagonistas notáveis, como Clara (Mariana Ximenes) e Flora (Patrícia Pillar), de “Passione” e “A Favorita”, respectivamente.
O homofóbico concebido por Gilberto Braga e Ricardo Linhares se aproxima da psicopatia. Curiosamente, este não é o primeiro psicopata interpretado por Thiago. Sua estreia no cinema foi como Lampião, um dos integrantes do temido e sangrento bando de garotos da Caixa Baixa no filme “Cidade de Deus”.
Vinícius não age movido por algum trauma. Ele tem um transtorno de personalidade. “Matei! Matei porque eu odeio essa raça. E ele estava gostando de apanhar. Ele estava gostando de apanhar!”, disse diante dos convidados de seu casamento, com um sorriso nos lábios, enquanto era preso. Na delegacia, foi mais longe. “Eu fazia mais por curtição. Meu sangue fervia, eu começava a sentir ódio daquelas pessoas, daquela gente. Eu tenho nojo. Eles são gays. Eles são boiolas. Eles não são iguais a mim. Não são! São doentes. Doentes!”, declarou para seu pai, Oscar (Luigi Baricelli).
Segundo a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, a psicopatia é um estado de ser no qual existe um excesso de razão e ausência de emoção. O psicopata sabe o que faz, com quem e por quê. “Todos têm em comum a ausência do sentimento em relação às outras pessoas. Não conseguem se colocar no lugar do outro, daí agirem de forma fria e sem arrependimentos”, afirmou em entrevista para a revista “Época”, há dois anos, quando lançou o best-seller “Mentes Perigosas – O Psicopata Mora ao Lado”.
Na última semana, no texto em que abordei a morte de Gilvan, diversos leitores protestaram contra a cena. Boa parte alegou que a crueldade, em vez de alerta, poderia servir de estímulo à violência. Afinal, no dia seguinte ao crime, Vinícius já estava diante de Cecília (Giovanna Lancellotti) reafirmando seu amor pela garota, como qualquer outro jovem apaixonado. Em nenhum momento demonstrou peso na consciência, assim como não expressou arrependimento de seus atos quando foi preso.
Acredito que a transição de comportamento sem qualquer explicação foi proposital. Em “O Clone”, Glória Perez alertou de forma didática para o perigo das drogas por meio de Lobato (Osmar Prado). O ex-dependente químico volta e meia fazia longos e emocionados monólogos explicativos sobre a luta para se manter longe do álcool e da cocaína. Já em “Insensato Coração”, Gilberto Braga e Ricardo Linhares optaram pela frieza de Vinícius não só para escancarar as virulentas consequências da falta de informação sobre temas ligados a homossexualidade, mas também para levantar outro ponto: a maldade existe e pode estar ligada à homofobia. “O que caracteriza o psicopata não é o nível do crime, mas a forma como ele o comete, a predisposição para planejar e executar sem nenhum sentimento em relação à vítima”, ressaltou a psiquiatra e escritora Ana Beatriz na entrevista.
Entendo que muitos telespectadores esperam que os autores sejam didáticos ao demonstrarem suas intenções, ainda mais em um país com um índice tão alto de analfabetismo funcional. Porém, o grande acerto em “Insensato Coração” foi não entregar tudo mastigado à audiência. A população precisa se libertar da ignorância, nem que seja na base do choque, vendo cenas tão cruéis.
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