terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Favelas dominadas por tráfico ficam sem ações contra dengue às vésperas de epidemia, dizem moradores - O Rio Branco

Ter, 06 de Dezembro de 2011- R7

Prefeitura do Rio diz que visitas a imóveis são feitas independentemente da localização

Às vésperas do que pode ser uma das maiores epidemias de dengue da história da cidade do Rio de Janeiro, comunidades ainda controladas pelo tráfico de drogas denunciam a falta de ações de órgãos públicos no combate ao mosquito transmissor. Moradores dos complexos da Maré e Vila Kennedy (favelas da zona norte), que ainda não receberam UPPs (Unidades de Polícia Pacificadoras), dizem que não há visitas de agentes de endemia às casas para fiscalização. A prefeitura, no entanto, nega as denúncias.

Embora o governo estadual tenha anunciado medidas para evitar a epidemia, comunidades não pacificadas sofrem com o descaso. Exemplo da diferença de tratamento é a campanha 10 Minutos Contra a Dengue, direcionada a favelas com UPPs. Enquanto essas comunidades já contam com diversos serviços de cidadania, favelas dominadas pelo crime organizado dependem de ações dos próprios moradores para combater o mosquito Aedes Aegypti.

A Secretaria Municipal de Saúde nega as denúncias e informa que as vistorias em imóveis são feitas independentemente da localização. Habitantes de favelas não pacificadas, no entanto, dizem que há somente reuniões entre os agentes de vigilância em saúde e associações de moradores, que repassam orientações de combate à dengue a escolas e postos de saúde. Moradores da Maré e Vila Kennedy ouvidos pelo R7 reclamam de falta de fiscalização casa a casa e do chamado fumacê, carros que borrifam inseticida nos bairros cariocas.

Apesar de ocupado pelo Exército há um ano, o Complexo do Alemão (zona norte) ainda depende de ações dos próprios moradores para combater os focos do mosquito transmissor. Segundo um agente de saúde da comunidade de Nova Brasília, que faz parte do conjunto de favelas, a prefeitura participa com orientações. O agente - que preferiu não ser identificado nesta reportagem - afirma, entretanto, que visitas de agentes de endemia para vistoriar casas e a entrada do carro fumacê na comunidade jamais aconteceram.

O mesmo acontece em comunidades de Bangu e da Maré. Juntos, os três bairros (Alemão, Bangu e Maré) tiveram 4.039 casos de dengue notificados pela Secretaria Municipal de Saúde desde o início do ano. De acordo com moradores que preferem não ter os nomes divulgados, a prefeitura apenas participa de ações junto a associações de bairro.

Em julho de 2009, um mata-mosquitos da prefeitura do Rio foi confundido com um estuprador e assassinado no Alemão. Dois anos depois, um agente que combate a dengue no mesmo local diz que ainda teme pela segurança, apesar da presença da Força de Pacificação.

Parceria entre as secretarias

Segundo Alexandre Chieppe, superintendente de Vigilância Epidemiológica e Ambiental da Secretaria Estadual de Saúde do Rio, a campanha contra a dengue não é mais uma ação específica da pasta da Saúde, como aconteceu em anos anteriores. Atualmente, a campanha é definida pelo governo do Estado e tem como característica o envolvimento de outras secretarias.

- A Secretaria de Obras, por exemplo, assinou um decreto em que se compromete a manter o foco do mosquito longe das construções realizadas pela pasta, enquanto a Secretaria de Educação participa de ações como a formação de brigadas antidengue nas escolas.

Já a Secretaria de Segurança Pública informou que a parceria acontece em comunidades que possuem UPP. De acordo com a assessoria da pasta, não há nenhuma ação em locais não pacificados.

O anúncio de uma possível epidemia de dengue se deu após a chegada do tipo 4 da doença ao Rio. O superintendente informou que parte da população ainda está sujeita a contrair o tipo 1 da doença, que continua em circulação no Estado.

- O cenário epidemiológico é preocupante por conta da presença do vírus 4, ao qual toda a sociedade do Estado é suscetível. Mas tem também em circulação o vírus tipo 1, que foi o que mais atingiu a população neste ano e ainda tem espaço para a circulação, já que ainda existe muita gente suscetível a esse vírus também.

A secretaria informou nesta semana que foram notificados, desde o dia 2 de janeiro, 163.471 casos de dengue em todo o Estado do Rio de Janeiro. Ainda segundo a pasta, 137 pessoas morreram em decorrência da doença, número que já é o triplo do que foi registrado em 2010.

De acordo com a Fiocruz, a fundação começou, recentemente, um trabalho de pesquisa para desenvolver uma vacina eficaz contra a dengue, porém os trabalhos estão apenas no início e não há previsão para que os trabalhos sejam concluídos.


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