Destaque para três pontos que acredito serem fundamentais nessa novela:
1) A Rede Globo convocou uma reunião com Gilberto Braga, homossexual
assumido, responsável pelos maiores sucessos de audiência do canal, e
tão logo, um dos autores mais rentáveis da casa, para que ele não
“carregue bandeira política” e não faça apologia a necessidade de uma
lei que puna a homofobia. Por que tal exigência não foi feita a Manoel
Carlos às vésperas da aprovação do Estatuto do Idoso, uma vez que o
Brasil é composto por uma maioria jovem? Quando o autor do Leblon
inseriu os personagem Laura e Leopoldo, que seriam infernizados pela
neta Dóris em Mulheres Apaixonadas, também existia uma bandeira política, não? Quando debatemos racismo (como em Da Cor do Pecado), saúde pública (em De Corpo e Alma), tráfico e consumo de drogas (em O Clone) ou não indo tão longe assim, e utilizando a própria Insensato Coração
como exemplo, o caso de abuso sexual sofrido pela personagem Cecília,
que tal? Também não são bandeiras políticas? E não merecem ser debatidas
e expostas ao público? Onde foi parar aquele enorme e pomposo fascículo
sobre Responsabilidade Social que a Rede Globo apresenta a seus
patrocinadores na hora de angariar cotas para sua programação?
2) As cenas engraçadas do personagem Roni devem continuar. Ou seja,
respeitar o ser humano e mostrar a sociedade que existe um setor
fragilizado e que necessita de proteção do Estado não é bom para o
Brasil, mas mostrar um personagem caricato que apenas reforça o
preconceito, colocando-o como objeto de escárnio como acontece desde
sempre na televisão brasileira, isso é totalmente aceitável.
3) A Globo alega que a TV é um veículo de massa e precisa contemplar
todos os seus públicos. Os LGBTs não estão inseridos em seus públicos?
Nós não assistimos seus programas? Então, uma vez que devemos contemplar
TODOS os públicos na TV, por que então a existência de programas como a
Santa Missa Em Seu Lar, uma vez que nem todos os brasileiros são
católicos? E por que somos obrigados a conviver com o Auto-Esporte, já
que nem todo mundo se interessa e/ou tem um carro. E por que não
engavetar o Mais Você, já que uma parcela da sociedade não tem nem o que
comer e é obrigada a assistir Ana Maria Braga preparando seus quitutes
nas manhãs globais?
Curiosamente, no mesmo dia que a matéria é públicada pela Folha, temos dois destaques sobre homofobia no Brasil:
O primeiro caso relata de um pai e seu filho que estavam abraçados em
uma festa popular no interior de São Paulo e foram brutalmente
agredidos por um grupo de sete rapazes que acreditavam que eles eram um
casal de homossexuais. O pai teve parte da sua orelha decepada por um
objeto cortante. Caso não acredite, leia aqui. Em outro relato, descobrimos que a Bahia é o estado onde mais homossexuais morrem unicamente por serem homossexuais.
E, além disso, revelamos o triste dado que o Brasil é o país que mais
mata LGBTs no mundo em seus crimes de ódio. E aí eu questiono: num país
onde até heterossexuais são agredidos por conta da homofobia, não
devemos levantar bandeira e mostrar a sociedade que existe a necessidade
de respeito? E a televisão, que é o principal veículo para promoção de
qualquer coisa nesse país, não tem a responsabilidade de alertar e
informar seus telespectadores sobre isso?
Eu, pessoalmente, estou boicotando Insensato Coração. Forte abraço a todos os envolvidos.
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