Praticamente um SUS melhorado
Filas nos hospitais e dificuldades para marcação de consultas estão cada vez mais comuns na rede privada
Sérgio Henrique Santos
sergiohenrique.rn@dabr.com.br
Sérgio Henrique Santos
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Com hospitais particulares cada vez mais cheios, o setor privado de saúde está sendo vítima de seu próprio sucesso. Basta percorrer os maiores hospitais privados da capital para se observar uma cena corriqueira: urgências, emergências e pronto-socorros superlotados. Clientes com planos de saúde aguardam horas para ser atendidos, passam por triagens e aguardam consultas especializadas ou por cirurgias da mesma forma que qualquer usuário da rede pública, no também superlotado Sistema Único de Saúde (SUS). A crise da saúde pública verificada nas últimas semanas não difere muito da realidade da saúde privada, sustentada pelos usuários dos planos de saúde e particulares.
O cenário nos hospitais privados começa a lembrar o dos estabelecimentos públicos, e se mostra problemático por causa da influência do número avassalador de novos clientes de convênios particulares que, nos últimos anos, se beneficiam do crescimento econômico dos brasileiros e da ascensão das classes menos favorecidas. Atualmente o Rio Grande do Norte tem 516.650 beneficiários de planos de saúde, conforme dados mais recentes da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Há dez anos, o Estado tinha 280.856 usuários de planos. Um crescimento de aproximadamente 80%, com o agravante de que é praticamente a mesma quantidade de hospitais que prestam atendimento através dos convênios. Ou seja, a rede de assistência avança bem mais lentamente do que as adesões aos planos de saúde.
Essa semana o Diário de Natal percorreu quatro dos maiores hospitais particulares de Natal. E escolheu uma data estratégica, a segunda-feira dia 30, véspera de feriado do Dia do Trabalhador, 1º de maio. "Normalmente a segunda-feira é lotada porque o pessoal não procura muito o hospital no final de semana. E como amanhã [terça] é feriado, está bem cheio. Sábado também foi um dia atípico, muito cheio mesmo", relata a gerente de clientes externos do Hospital do Coração, Luzineide Bandeira de Melo. No Hospital do Coração, o primeiro visitado pela equipe de reportagem, havia cerca de 25 pessoas aguardando na recepção do Pronto-Socorro.
A média gira em torno de 150 a 200 pessoas por dia, para uma estrutura de plantonistas composta por dois clínicos gerais, um ortopedista e um cardiologista. A unidade tem seis leitos de prontoatendimento, além de poltronas disponibilizadas para aqueles pacientes menos graves e leves, com poucas afecções. "Ultimamente temos recebido um número muito elevado de pacientes. Conseguimos atender à demanda graças aos nossos funcionários. Temos um totem que emite fichas e está funcionando bem. Há algumas reclamações especialmente quando chega alguma urgência, mas na medida do possível conseguimos contorná-las", afirmou Luzineide, lembrando que os casos de dengue e de viroses têm aumentado desde o último mês. Poucos pacientes procuram o Hospital do Coração em busca de atendimento pago em dinheiro vivo. Recebendo pacientes acima de 14 anos de idade, a maior parte tem planos de saúde.
Segunda-feira é o dia de maior movimento no hospital. O funcionário público municipal Gláucio Medeiros levou a mulher, Joana Angélica Fagundes, para ser atendida no Hospital do Coração. Com sintomas de catapora, ela aguardava há pouco mais de meia hora antes de ser atendida quando conversou com o DN, mas o casal reclamou da demora no setor privado de saúde. "Da outra vez que viemos à noite estava ainda mais cheio. Aguardamos uma hora e meia para sermos atendidos. Hoje até que está tranquilo. Com os preços dos planos de saúde mais acessíveis para a maior parte das pessoas, está acontecendo essa superlotação nos hospitais particulares. Quem tinha planos de saúde antigamente rapidamente era atendido. Hoje não", relatou Gláucio.
Jadson de Farias, enfermeiro do pronto-socorro do Hospital do Coração e que também trabalha no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu Natal), salientou outro fator que ajuda na superlotação dos hospitais. "A população tem envelhecido, e consequentemente os problemas de saúde também aumentam. Os hospitais deNatal estão se tornando pequenos. Isso demanda muitos leitos de enfermaria, leitos de apartamento, leitos de UTI. A situação é essa", reconhece ele. "A média de espera depende do dia, mas normalmente o hospital está bem movimentado, principalmente nos finais de semana e nos feriados".
Urgências cheias e demoradas
Segunda parada, Hospital Promater. Urgências adulto e pediátrica cheias de pacientes aguardando atendimento. Foi nesse hospital que O Poti/DN relatou na semana passada o drama vivido por uma bibliotecária que passou mal com fortes dores no estômago e procurou a urgência da unidade por volta das 13h30 e de lá só saiu à meia-noite por causa dos medicamentos que teve que tomar. "Pra mim não tem cabimento chegar numa urgência às 13h30 e ser atendida às 18h30. Pagamos caro para ter acesso à saúde. Meu plano é considerado um dos melhores de Natal, custa mais de R$ 200. Acho que essas demoras absurdas já viraram um caos. A saúde privada está se tornando um SUS um pouco melhorado", disse Sabina Pires, a bibliotecária entrevistada. No dia em que a equipe esteve na Promater, os diretores não estavam presentes, segundo a atendente, e ninguém estava autorizado a falar com a imprensa.
Na urgência do Hospital Papi, terceiro local visitado pela equipe de reportagem de O Poti/Diário de Natal, poucos adultos aguardavam atendimento: apenas seis, embora o fluxo de pessoas se mantivesse sempre constante. Em contrapartida, a urgência pediátrica estava lotada, dada a limitação física da recepção: pelo menos 25 mães e pais aguardavam seus filhos serem atendidos. A coordenadora de recepção, Manuela Cristina, disse que a situação na unidade é de constante lotação. "Não atendemos apenas Natal. Vêm muitos pacientes de outras cidades. Se houver exames, hemogramas, raios-X, o paciente demora até duas horas entre a chegada dele e a saída. A gente tem conversado com os médicos para agilizar ao máximo o atendimento aos pacientes, e vendo quem precisa de descanso, tomar medicação, essas coisas", explicou.
A unidade dispõe de uma estrutura com leitos de UTI pediátrica, UTI neonatal e UTI adulto. São dois médicos de plantão, um fixo e outro de reforço. Dois pediatras pela manhã e dois à tarde também prestam serviço no Hospital Papi. O diretor do hospital, Eduardo Maia, reconhece o problema, verificado principalmente no atendimento às gestantes, lactantes e crianças. Ele disse que faltam mais investimentos do setor privado na área de pediatria.
"Os convênios pagam muito pouco por um leito de pediatria, o que dificulta nossos investimentos. A cidade cresceu, aumentaram os convênios e a demanda por atendimento também", ressaltou o diretor. Na capital, um plano de saúde paga entre R$ 500 e R$ 600 por criança internada num leito de hospital. Para um adulto, o mesmo leito custa entre R$ 2 mil e R$ 3 mil. Na rede privada, apenas dois hospitais cobrem essa demanda por atendimento pediátrico, o Papi e a Promater. "É inviável um hospital viver apenas de pediatria. Se não surgirem outros serviços em breve, a demora no fluxo de atendimento infelizmente pode se agravar", prevê Eduardo Maia.
A última visita aconteceu na Casa de Saúde São Lucas. Trinta adultos aguardavam sua vez de serem atendidos no Pronto-Socorro da unidade. Uma tabela na parede da recepção indicava os plantonistas. Havia um cardiologista, dois clínicos gerais e um traumatologista. A escala nãoindicava neurologistas nem médicos de plantão das UTIs, mas o diretor, Sidney Gurgel, garantiu que sempre há plantonistas na UTI. Ele confirmou que a demanda é crescente. "A casa está sempre cheia. Isso se deve ao aumento virtual da população e das vendas dos planos de saúde. Esses dois fatores são mais do que suficientes para aumentar a demanda em qualquer hospital. Outra dificuldade é que o número de leitos privados também não tem aumentado. Tem se mantido constante", disse.
Sidney Gurgel explicou que o hospital procura diminuir ao máximo o tempo de espera dos pacientes nas filas. "Dispomos sempre de dois médicos de plantão, um em cada UTI, além do médico chamado de diarista, que faz visitas diárias aos pacientes da Terapia Intensiva. Ele tem a obrigação a fazer as visitas aos dez leitos de UTI. Somos o hospital que tem mais médicos plantonistas, e temos feito o possível para crescer. Queremos aumentar nosso pronto-socorro, mas aguardamos uma aprovação das licenças junto à prefeitura. Os processos demoram entre seis e oito meses. Reconhecemos o problema, mas temos a intenção de aumentar o número de leitos e o de atendimentos".
Fotos: Carlos Santos/DN/D.A Press |
Essa semana o Diário de Natal percorreu quatro dos maiores hospitais particulares de Natal. E escolheu uma data estratégica, a segunda-feira dia 30, véspera de feriado do Dia do Trabalhador, 1º de maio. "Normalmente a segunda-feira é lotada porque o pessoal não procura muito o hospital no final de semana. E como amanhã [terça] é feriado, está bem cheio. Sábado também foi um dia atípico, muito cheio mesmo", relata a gerente de clientes externos do Hospital do Coração, Luzineide Bandeira de Melo. No Hospital do Coração, o primeiro visitado pela equipe de reportagem, havia cerca de 25 pessoas aguardando na recepção do Pronto-Socorro.
A média gira em torno de 150 a 200 pessoas por dia, para uma estrutura de plantonistas composta por dois clínicos gerais, um ortopedista e um cardiologista. A unidade tem seis leitos de prontoatendimento, além de poltronas disponibilizadas para aqueles pacientes menos graves e leves, com poucas afecções. "Ultimamente temos recebido um número muito elevado de pacientes. Conseguimos atender à demanda graças aos nossos funcionários. Temos um totem que emite fichas e está funcionando bem. Há algumas reclamações especialmente quando chega alguma urgência, mas na medida do possível conseguimos contorná-las", afirmou Luzineide, lembrando que os casos de dengue e de viroses têm aumentado desde o último mês. Poucos pacientes procuram o Hospital do Coração em busca de atendimento pago em dinheiro vivo. Recebendo pacientes acima de 14 anos de idade, a maior parte tem planos de saúde.
Segunda-feira é o dia de maior movimento no hospital. O funcionário público municipal Gláucio Medeiros levou a mulher, Joana Angélica Fagundes, para ser atendida no Hospital do Coração. Com sintomas de catapora, ela aguardava há pouco mais de meia hora antes de ser atendida quando conversou com o DN, mas o casal reclamou da demora no setor privado de saúde. "Da outra vez que viemos à noite estava ainda mais cheio. Aguardamos uma hora e meia para sermos atendidos. Hoje até que está tranquilo. Com os preços dos planos de saúde mais acessíveis para a maior parte das pessoas, está acontecendo essa superlotação nos hospitais particulares. Quem tinha planos de saúde antigamente rapidamente era atendido. Hoje não", relatou Gláucio.
Jadson de Farias, enfermeiro do pronto-socorro do Hospital do Coração e que também trabalha no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu Natal), salientou outro fator que ajuda na superlotação dos hospitais. "A população tem envelhecido, e consequentemente os problemas de saúde também aumentam. Os hospitais deNatal estão se tornando pequenos. Isso demanda muitos leitos de enfermaria, leitos de apartamento, leitos de UTI. A situação é essa", reconhece ele. "A média de espera depende do dia, mas normalmente o hospital está bem movimentado, principalmente nos finais de semana e nos feriados".
Urgências cheias e demoradas
Segunda parada, Hospital Promater. Urgências adulto e pediátrica cheias de pacientes aguardando atendimento. Foi nesse hospital que O Poti/DN relatou na semana passada o drama vivido por uma bibliotecária que passou mal com fortes dores no estômago e procurou a urgência da unidade por volta das 13h30 e de lá só saiu à meia-noite por causa dos medicamentos que teve que tomar. "Pra mim não tem cabimento chegar numa urgência às 13h30 e ser atendida às 18h30. Pagamos caro para ter acesso à saúde. Meu plano é considerado um dos melhores de Natal, custa mais de R$ 200. Acho que essas demoras absurdas já viraram um caos. A saúde privada está se tornando um SUS um pouco melhorado", disse Sabina Pires, a bibliotecária entrevistada. No dia em que a equipe esteve na Promater, os diretores não estavam presentes, segundo a atendente, e ninguém estava autorizado a falar com a imprensa.
Na urgência do Hospital Papi, terceiro local visitado pela equipe de reportagem de O Poti/Diário de Natal, poucos adultos aguardavam atendimento: apenas seis, embora o fluxo de pessoas se mantivesse sempre constante. Em contrapartida, a urgência pediátrica estava lotada, dada a limitação física da recepção: pelo menos 25 mães e pais aguardavam seus filhos serem atendidos. A coordenadora de recepção, Manuela Cristina, disse que a situação na unidade é de constante lotação. "Não atendemos apenas Natal. Vêm muitos pacientes de outras cidades. Se houver exames, hemogramas, raios-X, o paciente demora até duas horas entre a chegada dele e a saída. A gente tem conversado com os médicos para agilizar ao máximo o atendimento aos pacientes, e vendo quem precisa de descanso, tomar medicação, essas coisas", explicou.
A unidade dispõe de uma estrutura com leitos de UTI pediátrica, UTI neonatal e UTI adulto. São dois médicos de plantão, um fixo e outro de reforço. Dois pediatras pela manhã e dois à tarde também prestam serviço no Hospital Papi. O diretor do hospital, Eduardo Maia, reconhece o problema, verificado principalmente no atendimento às gestantes, lactantes e crianças. Ele disse que faltam mais investimentos do setor privado na área de pediatria.
"Os convênios pagam muito pouco por um leito de pediatria, o que dificulta nossos investimentos. A cidade cresceu, aumentaram os convênios e a demanda por atendimento também", ressaltou o diretor. Na capital, um plano de saúde paga entre R$ 500 e R$ 600 por criança internada num leito de hospital. Para um adulto, o mesmo leito custa entre R$ 2 mil e R$ 3 mil. Na rede privada, apenas dois hospitais cobrem essa demanda por atendimento pediátrico, o Papi e a Promater. "É inviável um hospital viver apenas de pediatria. Se não surgirem outros serviços em breve, a demora no fluxo de atendimento infelizmente pode se agravar", prevê Eduardo Maia.
Gláucio reclama da demora no atendimento |
Sidney Gurgel explicou que o hospital procura diminuir ao máximo o tempo de espera dos pacientes nas filas. "Dispomos sempre de dois médicos de plantão, um em cada UTI, além do médico chamado de diarista, que faz visitas diárias aos pacientes da Terapia Intensiva. Ele tem a obrigação a fazer as visitas aos dez leitos de UTI. Somos o hospital que tem mais médicos plantonistas, e temos feito o possível para crescer. Queremos aumentar nosso pronto-socorro, mas aguardamos uma aprovação das licenças junto à prefeitura. Os processos demoram entre seis e oito meses. Reconhecemos o problema, mas temos a intenção de aumentar o número de leitos e o de atendimentos".
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